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quarta-feira, 3 de abril de 2019
Edgar Allan Poe: O Corvo
Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.
E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."
Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.
Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.
Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."
Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.
Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".
Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".
No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"
Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".
Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".
Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranquilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.
Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."
“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".
E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!
(Tradução de Machado de Assis)
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
O ANARQUISTA ALENTEJANO ARTUR MODESTO
Artur dos Santos Modesto nasceu em Beja a 27 de Maio de 1897 e morreu em Lisboa a 3 de Abril de 1985. Foi um dos anarquistas da velha guarda que passou o testemunho aos mais novos, já no pós 25 de Abril, fazendo parte do colectivo que voltou a publicar o jornal “A Batalha” e criou o Centro de Estudos Libertários.
Artur Modesto tinha apenas a 2ª classe, mas foi um verdadeiro autodidata, no mais genuíno espírito libertário, mantendo conversas apaixonadas e profundas sobre os mais variados temas, chegando a desempenhar funções de “secretário” junto de António Sérgio, o “pai” do cooperativismo português.
Filho de um sapateiro e de uma ajuntadeira, seguiu também a profissão de sapateiro que começou por exercer em Beja. Filiou-se como membro do Sindicato dos Sapateiros de Beja, aos 15 anos, em 1912 e foi militante ativo das Juventudes Sindicalistas. Veio para Lisboa em 1928, já depois do golpe fascista de 28 de Maio de 1926 e numa altura em que as Juventudes Sindicalistas e a CGT eram alvo de grande repressão. Participou na Conferência Libertária em Belém em 1932. Ativista da Federação Portuguesa de Solidariedade, do Núcleo Cultural “Ferreira de Castro” e do Sporting Club do Rio Seco, foi também membro do Grupo Anarquista “Fanal”, no pós-25-4-1974, federado da FARP-FAI.
Artur Modesto, com quem convivi já na década de 70 contou-me um aspecto que não pude ainda confirmar: que o Despertar Sporting Clube de Beja, ainda hoje existente, foi fundado por membros da Juventude Sindicalista bejense que deram ao nóvel clube o nome do jornal que a organização anarco-sindicalista então editava: O Despertar. Fundado em 1920, o Despertar foi sempre considerado em Beja como um clube das camadas populares e, segundo Artur Modesto, muitos jovens depois do golpe de 28 de Maio e do ataque cerrado ao movimento libertário, com o encerramento das suas sedes e a prisão dos militantes mais conhecidos, usaram o clube para reuniões e algumas atividades de carácter sindical. Uma memória que foi esmorecendo no tempo, mas da qual ainda devem existir registos.
Poeta de raiz popular tem dois livros editados pela Editora Sementeira, Lisboa – “Páginas do Meu Caderno”, Dezembro-1978 e “Alfarrábio Poético” (em conjunto com os militantes Francisco Quintal e José Francisco), Janeiro-1984.
terça-feira, 31 de maio de 2016
Por que nós somos anarquistas?
Nós somos anarquistas, porque há vários séculos, temos
sido vítimas de todos os tipos de governos, que ao longo dessa tirania, foi
aparecendo mais um ladrão, mais um fanático, mais um assassino mais um déspota.
Nós somos anarquistas porque nós achamos que não existem
razões para ser explorado e para que tenhamos de trabalhar para que um grupo de
sem vergonhas se tornem milionários.
Nós somos anarquistas, porque não aceitamos nas leis que
são inventadas para assassinar e sufocar o nosso grito de protesto. Nós somos
anarquistas porque não acreditamos nas suas guerras, em suas pátrias, ou em
seus deuses. Nós somos anarquistas porque detestamos sua polícia, os seus
generais, reis e presidentes.
Nós somos anarquistas, porque, ao contrário deles,
sofremos com as desgraças humanas. Nós somos anarquistas, porque queremos vida
livre, saudável, de respeito mútuo e igualdade para os nossos filhos e filhas.
Nós somos anarquistas porque não aguentamos ver as lágrimas
de tantas pessoas boas, humildes, que têm sido enganadas geração após geração.
Nós somos anarquistas, porque estamos envergonhados desse sistema, em que
vemos, não só morte, mas: fome, prisões, repressão, desigualdade, e alienação
além de milhões de mentiras.
Nós somos anarquistas porque conhecemos o seu poder, a
sua força, seu terrorismo, a calúnia, vocês nos assassinam nos encarceram, nos
difamam.
Chamamos de terroristas, algumas pessoas que dominam
outras pessoas com bombas, tanques, armas, prisões, torturas e execuções,
hospitais psiquiátricos e a mentira do inferno. Dizem que Anarquia é o caos,
mas na sua sociedade capitalista é que vemos criminalidade, prostituição,
desigualdade, destruição, ao mesmo tempo: excesso de comida e milhões de seres
humanos morrendo de fome, bombardeios de povoados, cidades, países inteiros,
arrasam tudo com sua ganância causando pânico geral.
Sua ambição, seu egoísmo, sua burrice, Sua cegueira e
loucura pelo poder está destruindo a você mesmo, os seu filhos e seus netos não
vão querer lembrar de você, seu sistema está em caos porque é sustentado por
mentiras, terror, artigos, Códigos, leis, recompensas e punições.
É por isso que somos anarquistas, somos anarquistas para
mudar esta sociedade positivamente, para que você se cure dessa loucura
perigosa, Nós somos anarquistas, porque é necessário que haja alguém para
gritar suas atrocidades, porque não temos medo, como muitos não tiveram.
Nós somos anarquistas nas ruas, na prisão, na cadeira
elétrica, no julgamento e nos cemitérios.
Porque ser um anarquista é ser muitas coisas que você nem
compreende nem tem capacidade de entender, e assim, nos assassinam desde
séculos atrás, nos põem a culpa e nos aprisionam, alienam soldados e policias
para que vos defendam, usam de todas as artimanhas para nos derrubar, mas,
chegam a conclusão de que, para cada anarquista que vocês assassinam, nasce
outro.
Não iremos lhes perdoar, não jogaremos o seu jogo, somos
aqueles que não creem em suas promessas, dói em vocês quando defendemos a liberdade
e a igualdade, acreditamos na arte, no progresso, na educação, não precisamos
nem de deuses, nem mestres, acreditamos nos seres humanos, na Natureza, nos
direitos e deveres de cada um, queremos uma sociedade de paz, amor e respeito
mútuo, uma sociedade que não parece ser nada igual a sua, queremos uma
sociedade anarquista.
terça-feira, 19 de abril de 2016
KARL MARX: A IDEOLOGIA ALEMÃ
Eis, pois os fatos: indivíduos determinados que têm
uma atividade produtiva segundo um modo determinado entram nas relações sociais
e políticas determinadas. É preciso que em cada caso isolado a observação
empírica mostre nos fatos, e sem nenhuma especulação nem mistificação, o laço
entre a estrutura social e política e a produção.
A estrutura social e o estado
resultam constantemente do processo vital de indivíduos determinados; mas
desses indivíduos, não tais como podem aparecer na sua própria representação ou
na de outro, mas tais como são na realidade, isto é, tais como operam e
produzem materialmente; logo, tais como agem nas bases e nas condições e
limites materiais determinados e independentes de sua vontade.
A produção das ideias, das representações e da
consciência está primeiro direta e intimamente misturada à atividade material e
ao comércio natural dos homens; ela é linguagem da vida real. As
representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens aparecem aí
ainda como a emanação direta de seu comportamento material. Dá-se o mesmo
quanto à produção intelectual tal qual se apresenta na língua da política, das
leis, da moral, da religião, da metafísica etc., de todo um povo.
São os homens
que são os produtores de suas representações, de suas ideias etc., mas os
homens reais, atuantes, tais como são condicionados por um desenvolvimento
determinado de suas forças positivas e das relações que lhes correspondem,
inclusive as formas mais amplas que estes podem assumir.
A consciência não pode
nunca ser outra coisa senão o ser consciente e o ser dos homens é seu processo
de vida real. E se, em toda ideologia, os homens e suas relações nos parecem
postos de cabeça para baixo como numa câmera escura, este fenômeno decorre de
seu processo de vida histórica, absolutamente como a inversão dos objetos na
retina decorre de seu processo de vida diretamente física.
Ao contrário da filosofia alemã que desce do céu à terra,
é da terra ao céu que se sobe aqui. Dito de outro modo, não partimos do que os
homens dizem, imaginam, representam, nem sequer do que são nas palavras, no
pensamento, na imaginação e na representação de outro, para chegar em seguida aos
homens em carne e osso; não, partimos dos homens em sua atividade real; é a
partir de seu processo de vida real que representamos também o desenvolvimento
dos reflexos e dos ecos ideológicos desse processo vital.
E mesmo as
fantasmagorias no cérebro humano são sublimações resultantes necessariamente do
processo de sua vida material que se pode constatar empiricamente e que repousa
em bases materiais.
Em consequência desse fato, a moral, a religião, a
metafísica e todo o resto da ideologia, assim como as formas de consciência que
lhe correspondem, perdem logo toda aparência de autonomia. Não têm história,
não têm desenvolvimento; são, ao contrário, os homens que, desenvolvendo sua
produção material e suas relações materiais, transformam, com esta realidade
que lhes é própria, seus pensamentos e os produtos do seu pensamento. Não é a
consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.
No
primeiro modo de considerar as coisas, parte-se da consciência como sendo
indivíduo vivo; no segundo modo, que corresponde à vida real, parte-se dos
próprios indivíduos reais e vivos e se considera a consciência unicamente como
sua consciência.
MARX, L’ideologie allemande, ( a ideologia alemã), 1ª
parte. Editions sociales, pp. 34-47 Citado em: VV.AA. Os filósofos através dos
textos. De Platão a Sartre. [tradução Constança Terezinha M. César] São Paulo:
Paulus, 1997. p.253-254.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Clarice Lispector: Das Vantagens de Ser Bobo
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
"Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos.
Pouco não me serve,
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente...
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,
de entrar em contato...
Ou toca, ou não toca".
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Guimarães Rosa: A Terceira Margem do Rio
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido
assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas
pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não
figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só
quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha
irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si
uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de
vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o
remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo,
própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou
muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia
propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no
tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí
se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a
forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a
gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma
recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu
somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique,
você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim,
me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas
obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito
perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só
retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás.
Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na
canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por
igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só
executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio,
sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa
verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.
Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente
conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de
nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto
de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por
escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para
outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias
se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do
afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar
terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio,
solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos,
assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e,
ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se
condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada
dia, um tanto de comida furtada: a ideia que senti, logo na primeira noite, quando
o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto
que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci,
com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de
uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no
fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez
sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de
bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos
a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só
se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas,
para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda
e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre
que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso
pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para
medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava
ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à
pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que
trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se
desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há,
por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente
mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria,
e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás
meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma,
como ele aguentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e
nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na
cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do
viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não
pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto,
ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não
armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou
um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente
depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do
barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força
dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes,
no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o
perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de
espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também,
não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter
esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar
de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente
imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no
gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte,
nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do
temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais
parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de
unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pelos, com o aspecto de
bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de
tempos em tempos fornecia.
Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto
mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom
procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer
assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade.
Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que,
então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no
não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma
entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi
num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento,
ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os
dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã
chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu
irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar
depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com
minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia
querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de
mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja
que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava
que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele
aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse,
fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por
ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não
estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado
que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me
entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns
primeiros cabelos brancos.
Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha
tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o
rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o
demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços,
perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão
idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa
emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar
horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e
morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o
culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas
fossem outras. E fui tomando ideia.
Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra
doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava
ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um
lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por
fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de
grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado,
tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu
tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora
mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na
canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E
eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e
feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu
não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num
procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E
estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou
homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei
que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então,
ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa
canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo,
rio a fora, rio a dentro — o rio.
Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", cuja compra e leitura
recomendamos.
quarta-feira, 22 de julho de 2015
A sereníssima República (Conferência do cônego Vargas)
Antes de comunicar-vos uma descoberta, que
reputo de algum lustre para o nosso país, deixai que vos agradeça a prontidão
com que acudisses ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe
aqui; mas não ignoro também, - e fora ingratidão ignorá-lo, - que um pouco de
simpatia pessoal se mistura à vossa legítima curiosidade científica. Oxalá
possa eu corresponder a ambas. Minha descoberta não é recente; data do fim do
ano de 1876. Não a divulguei então, - e, a não ser o Globo, interessante diário
desta capital, não a divulgaria ainda agora, - por uma razão que achará fácil
entrada no vosso espírito. Esta obra de que venho falar-vos, carece de retoques
últimos, de verificações e experiências complementares. Mas o Globo noticiou
que um sábio inglês descobriu a linguagem fônica dos insetos, e cita o estudo
feito com as moscas. Escrevi logo para a Europa e aguardo as respostas com
ansiedade. Sendo certo, porém, que pela navegação aérea, invento do padre
Bartolomeu, é glorificado o nome estrangeiro, enquanto o do nosso patrício mal
se pode dizer lembrado dos seus naturais, determinei evitar a sorte do insigne
Voador, vindo a esta tribuna, proclamar alto e bom som, à face do universo, que
muito antes daquele sábio, e fora das ilhas britânicas, um modesto naturalista
descobriu coisa idêntica, e fez com ela obra superior.
Senhores, vou
assombrar-vos, como teria assombrado a Aristóteles, se lhe perguntasse: Credes
que se possa dar um regime social às aranhas? Aristóteles responderia
negativamente, com vós todos, porque é impossível crer que jamais se chegasse a
organizar socialmente esse articulado arisco, solitário, apenas disposto ao
trabalho, e dificilmente ao amor. Pois bem, esse impossível fi-lo eu. Ouço um
riso, no meio do sussurro de curiosidade. Senhores, cumpre vencer os
preconceitos. A aranha parece-vos inferior, justamente porque não a conheceis.
Amais o cão, prezais o gato e a galinha, e não advertis que a aranha não pula
nem ladra como o cão, não mia como o gato, não cacareja como a galinha, não
zune nem morde como o mosquito, não nos leva o sangue e o sono como a pulga.
Todos esses bichos são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo. A mesma
formiga, tão gabada por certas qualidades boas, dá no nosso açúcar e nas nossas
plantações, e funda a sua propriedade roubando a alheia. A aranha, senhores,
não nos aflige nem defrauda; apanha as moscas, nossas inimigas, fia, tece,
trabalha e morre. Que melhor exemplo de paciência, de ordem, de previsão, de
respeito e de humanidade? Quanto aos seus talentos, não há duas opiniões. Desde
Plínio até Darwin, os naturalistas do mundo inteiro formam um só coro de
admiração em torno desse bichinho, cuja maravilhosa teia a vassoura
inconsciente do vosso criado destrói em menos de um minuto. Eu repetiria agora
esses juízos, se me sobrasse tempo; a matéria, porém, excede o prazo, sou
constrangido a abreviá-la. Tenho-os aqui, não todos, mas quase todos; tenho,
entre eles, esta excelente monografia de Büchner, que com tanta subtileza
estudou a vida psíquica dos animais.
Citando
Darwin e Büchner, é claro que me restrinjo à homenagem cabida a dois sábios de
primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as
teorias gratuitas e errôneas do materialismo. Sim, senhores, descobri uma
espécie araneida que dispõe do uso da fala; coligi alguns, depois muitos dos
novos articulados, e organizei-os socialmente. O primeiro exemplar dessa aranha
maravilhosa apareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876. Era tão vasta, tão
colorida, dorso rubro, com listras azuis, transversais, tão rápida nos
movimentos, e às vezes tão alegre, que de todo me cativou a atenção.
No dia
seguinte vieram mais três, e as quatro tomaram posse de um recanto de minha
chácara. Estudei-as longamente; achei-as admiráveis. Nada, porém, se pode
comparar ao pasmo que me causou a descoberta do idioma araneida, uma língua,
senhores, nada menos que uma língua rica e variada, com a sua estrutura
sintáxica, os seus verbos, conjugações, declinações, casos latinos e formas
onomatopaicas, uma língua que estou gramaticando para uso das academias, como o
fiz sumariamente para meu próprio uso. E fi-lo, notai bem, vencendo
dificuldades aspérrimas com uma paciência extraordinária. Vinte vezes
desanimei; mas o amor da ciência dava-me forças para arremeter a um trabalho
que, hoje declaro, não chegaria a ser feito duas vezes na vida do mesmo homem.
Guardo para outro recinto a descrição técnica do meu arácnide, e a análise da
língua. O objeto desta conferência é, como disse, ressalvar os direitos da
ciência brasileira, por meio de um protesto em tempo; e, isto feito, dizer-vos
a parte em que reputo a minha obra superior à do sábio de Inglaterra. Devo
demonstrá-lo, e para este ponto chamo a vossa atenção. Dentro de um mês tinha
comigo vinte aranhas; no mês seguinte cinquenta e cinco; em março de 1877
contava quatrocentas e noventa.
Duas forças
serviram principalmente à empresa de as congregar: - o emprego da língua delas,
desde que pude discerni-la um pouco, e o sentimento de terror que lhes infundi.
A minha estatura, as vestes talares, o uso do mesmo idioma, fizeram-lhes crer
que era eu o deus das aranhas, e desde então adoraram-me. E vede o benefício
desta ilusão. Como as acompanhasse com muita atenção e miudeza, lançando em um
livro as observações que fazia, cuidaram que o livro era o registro dos seus
pecados, e fortaleceram-se ainda mais na prática das virtudes. A flauta também
foi um grande auxiliar. Como sabeis, ou deveis saber, elas são doidas por
música. Não bastava associá-las; era preciso, dar-lhes um governo idôneo.
Hesitei na escolha; muitos dos atuais pareciam-me bons, alguns excelentes, mas
todos tinham contra si o existirem. Explico-me.
Uma forma vigente de governo ficava exposta a
comparações que poderiam amesquinhá-la. Era-me preciso, ou achar uma forma
nova, ou restaurar alguma outra abandonada. Naturalmente adotei o segundo
alvitre, e nada me pareceu mais acertado do que uma república, à maneira de
Veneza, o mesmo molde, e até o mesmo epíteto. Obsoleto, sem nenhuma analogia,
em suas feições gerais, com qualquer outro governo vivo, cabia-lhe ainda a
vantagem de um mecanismo complicado, - o que era meter à prova as aptidões
políticas da jovem sociedade. Outro motivo determinou a minha escolha. Entre os
diferentes modos eleitorais da antiga Veneza, figurava o do saco e bolas,
iniciação dos filhos da nobreza no serviço do Estado. Metiam-se as bolas com os
nomes dos candidatos no saco, e extraía-se anualmente um certo número, ficando
os eleitos desde logo aptos para as carreiras públicas.
Este sistema
fará rir aos doutores do sufrágio; a mim não. Ele exclui os desvarios da
paixão, os desazos da inépcia, o congresso da corrupção e da cobiça. Mas não
foi só por isso que o aceitei; tratando-se de um povo tão exímio na fiação de
suas teias, o uso do saco eleitoral era de fácil adaptação, quase uma planta
indígena. A proposta foi aceita. Sereníssima República pareceu-lhes um título
magnífico, roçagante, expansivo, próprio a engrandecer a obra popular. Não
direi, senhores, que a obra chegou à perfeição, nem que lá chegue tão cedo. Os
meus pupilos não são os solários de Campanela ou os utopistas de Morus; formam
um povo recente, que não pode trepar de um salto ao cume das nações seculares.
Nem o tempo é operário que ceda a outro a lima ou o alvião; ele fará mais e
melhor do que as teorias do papel, válidas no papel e mancas na prática. O que
posso afirmar-vos é que, não obstante as incertezas da idade, eles caminham,
dispondo de algumas virtudes, que presumo essenciais à duração de um Estado.
Uma delas, como já disse, é a perseverança, uma longa paciência de Penélope,
segundo vou mostrar-vos. Com efeito, desde que compreenderam que no ato
eleitoral estava a base da vida pública, trataram de o exercer com a maior
atenção. O fabrico do saco foi uma obra nacional. Era um saco de cinco
polegadas de altura e três de largura, tecido com os melhores fios, obra sólida
e espessa. Para compô-lo foram aclamadas dez damas principais, que receberam o título
de mães da república, além de outros privilégios e foros. Uma obra-prima,
podeis crê- lo.
O processo
eleitoral é simples. As bolas recebem os nomes dos candidatos, que provarem
certas condições, e são escritas por um oficial público, denominado "das
inscrições". No dia da eleição, as bolas são metidas no saco e tiradas
pelo oficial das extrações, até perfazer o número dos elegendos. Isto que era
um simples processo inicial na antiga Veneza, serve aqui ao provimento de todos
os cargos. A eleição fez-se a princípio com muita regularidade; mas, logo
depois, um dos legisladores declarou que ela fora viciada, por terem entrado no
saco duas bolas com o nome do mesmo candidato. A assembleia verificou a
exatidão da denúncia, e decretou que o saco, até ali de três polegadas de
largura, tivesse agora duas; limitando-se a capacidade do saco, restringia- se
o espaço à fraude, era o mesmo que suprimi-la. Aconteceu, porém, que na eleição
seguinte, um candidato deixou de ser inscrito na competente bola, não se sabe se
por descuido ou intenção do oficial público. Este declarou que não se lembrava
de ter visto o ilustre candidato, mas acrescentou nobremente que não era
impossível que ele lhe tivesse dado o nome; neste caso não houve exclusão, mas
distração. A assembléia, diante de um fenômeno psicológico inelutável, como é a
distração, não pôde castigar o oficial; mas, considerando que a estreiteza do
saco podia dar lugar a exclusões odiosas, revogou a lei anterior e restaurou as
três polegadas. Nesse ínterim, senhores, faleceu o primeiro magistrado, e três
cidadãos apresentaram-se candidatos ao posto, mas só dois importantes, Hazeroth
e Magog, os próprios chefes do partido retilíneo e do partido curvilíneo.
Devo
explicar-vos estas denominações. Como eles são principalmente geômetras, é a
geometria que os divide em política. Uns entendem que a aranha deve fazer as
teias com fios retos, é o partido retilíneo; - outros pensam, ao contrário, que
as teias devem ser trabalhadas com fios curvos, - é o partido curvilíneo. Há ainda
um terceiro partido, misto e central, com este postulado: - as teias devem ser
urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-curvilíneo; e finalmente,
uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez tábua rasa
de todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar,
obra transparente e leve, em que não há linhas de espécie alguma. Como a
geometria apenas poderia dividi-los, sem chegar a apaixoná-los, adotaram uma
simbólica. Para uns, a linha reta exprime os bons sentimentos, a justiça, a
probidade, a inteireza, a constância, etc., ao passo que os sentimentos ruins
ou inferiores, como a bajulação, a fraude, a deslealdade, a perfídia, são
perfeitamente curvos. Os adversários respondem que não, que a linha curva é a
da virtude e do saber, porque é a expressão da modéstia e da humildade; ao
contrário, a ignorância, a presunção, a toleima, a parlapatice, são retas,
duramente retas.
O terceiro
partido, menos anguloso, menos exclusivista, desbastou a exageração de uns e
outros, combinou os contrastes, e proclamou a simultaneidade das linhas como a
exata cópia do mundo físico e moral. O quarto limita-se a negar tudo. Nem
Hazeroth nem Magog foram eleitos. As suas bolas saíram do saco, é verdade, mas
foram inutilizadas, a do primeiro por faltar a primeira letra do nome, a do
segundo por lhe faltar a última. O nome restante e triunfante era o de um
argentário ambicioso, político obscuro, que subiu logo à poltrona ducal, com
espanto geral da república. Mas os vencidos não se contentaram de dormir sobre
os louros do vencedor; requereram uma devassa.
A devassa
mostrou que o oficial das inscrições intencionalmente viciara a ortografia de
seus nomes. O oficial confessou o defeito e a intenção; mas explicou-os dizendo
que se tratava de uma simples elipse; delito, se o era, puramente literário.
Não sendo possível perseguir ninguém por defeitos de ortografia ou figuras de
retórica, pareceu acertado rever a lei. Nesse mesmo dia ficou decretado que o
saco seria feito de um tecido de malhas, através das quais as bolas pudessem
ser lidas pelo público, e, ipso facto, pelos mesmos candidatos, que assim
teriam tempo de corrigir as inscrições. Infelizmente, senhores, o comentário da
lei é a eterna malícia. A mesma porta aberta à lealdade serviu à astúcia de um
certo Nabiga, que se conchavou com o oficial das extrações, para haver um lugar
na assembleia. A vaga era uma, os candidatos três; o oficial extraiu as bolas
com os olhos no cúmplice, que só deixou de abanar negativamente a cabeça, quando
a bola pegada foi a sua. Não era preciso mais para condenar a ideia das malhas.
A assembleia, com exemplar paciência, restaurou o tecido espesso do regime
anterior; mas, para evitar outras elipses, decretou a validação das bolas cuja
inscrição estivesse incorreta, uma vez que cinco pessoas jurassem ser o nome
inscrito o próprio nome do candidato. Este novo estatuto deu lugar a um caso
novo e imprevisto, como ides ver. Tratou-se de eleger um coletor de espórtulas,
funcionário encarregado de cobrar as rendas públicas, sob a forma de espórtulas
voluntárias. Eram candidatos, entre outros, um certo Caneca e um certo
Nebraska. A bola extraída foi a de Nebraska. Estava errada, é certo, por lhe
faltar a última letra; mas, cinco testemunhas juraram, nos termos da lei, que o
eleito era o próprio e único Nebraska da república. Tudo parecia findo, quando
o candidato Caneca requereu provar que a bola extraída não trazia o nome de
Nebraska, mas o dele.
O juiz de paz
deferiu ao peticionário. Veio então um grande filólogo, - talvez o primeiro da
república, além de bom metafísico, e não vulgar matemático, - o qual provou a
coisa nestes termos: - Em primeiro lugar, disse ele, deveis notar que não é
fortuita a ausência da última letra do nome Nebraska. Por que motivo foi ele
inscrito incompletamente? Não se pode dizer que por fadiga ou amor da
brevidade, pois só falta a última letra, um simples a. Carência de espaço?
Também não; vede: há ainda espaço para duas ou três sílabas. Logo, a falta é
intencional, e a intenção não pode ser outra, senão chamar a atenção do leitor
para a letra k, última escrita, desamparada, solteira, sem sentido. Ora, por um
efeito mental, que nenhuma lei destruiu, a letra reproduz-se no cérebro de dois
modos, a forma gráfica e a forma sônica: k e ca. O defeito, pois, no nome
escrito, chamando os olhos para a letra final, incrusta desde logo no cérebro,
esta primeira sílaba: Ca. Isto posto, o movimento natural do espírito é ler o
nome todo; volta-se ao princípio, à inicial ne, do nome Nebrask. - Cané. -
Resta a sílaba do meio, bras, cuja redução a esta outra sílaba ca, última do
nome Caneca, é a coisa mais demonstrável do mundo. E, todavia, não a
demonstrarei, visto faltar-vos o preparo necessário ao entendimento da
significação espiritual ou filosófica da sílaba, suas origens e efeitos, fases,
modificações, conseqüências lógicas e sintáxicas, dedutivas ou indutivas,
simbólicas e outras. Mas, suposta a demonstração, aí fica a última prova,
evidente, clara, da minha afirmação primeira pela anexação da sílaba ca às duas
Cane, dando este nome Caneca.
A lei
emendou-se, senhores, ficando abolida a faculdade da prova testemunhal e
interpretativa dos textos, e introduzindo-se uma inovação, o corte simultâneo
de meia polegada na altura e outra meia na largura do saco. Esta emenda não
evitou um pequeno abuso na eleição dos alcaides, e o saco foi restituído às
dimensões primitivas, dando-se-lhe, todavia, a forma triangular. Compreendeis
que esta forma trazia consigo, uma conseqüência: ficavam muitas bolas no fundo.
Daí a mudança para a forma cilíndrica; mais tarde deu-se-lhe o aspecto de uma
ampulheta, cujo inconveniente se reconheceu ser igual ao triângulo, e então
adotou-se a forma de um crescente, etc. Muitos abusos, descuidos e lacunas
tendem a desaparecer, e o restante terá igual destino, não inteiramente,
decerto, pois a perfeição não é deste mundo, mas na medida e nos termos do
conselho de um dos mais circunspectos cidadãos da minha república, Erasmus,
cujo último discurso sinto não poder dar-vos integralmente. Encarregado de
notificar a última resolução legislativa às dez damas incumbidas de urdir o
saco eleitoral, Erasmus contou-lhes a fábula de Penélope, que fazia e desfazia
a famosa teia, à espera do esposo Ulisses. - Vós sois a Penélope da nossa
república, disse ele ao terminar; tendes a mesma castidade, paciência e
talentos. Refazei o saco, amigas minhas, refazei o saco, até que Ulisses,
cansado de dar às pernas, venha tomar entre nós o lugar que lhe cabe. Ulisses é
a Sapiência.
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