VENTO
Eu acabei e tu estás viva.
E o vento, queixando-se e chorando,
abana a casa e as árvores à volta.
Não cada pinheiro isoladamente,
mas todas as árvores juntas
de todos os infinitos distantes,
como navios ao sabor das correntes
nas baías brilhantes ancorados.
E isso não por audácia
ou por frenesia insensata,
mas para na melancolia encontrar as palavras
para a tua canção de embalar.
É assim que começam. Pelos dois anos
separam-se da ama para o enigma das melodias,
gorjeiam, assobiam, - e as palavras
surgem por volta dos três anos.
É assim que começam a entender.
E no ruído pior que uma turbina
parece que a mãe não é mãe,
que eles não são eles e a casa é outra.
Que fazer da terrível beleza
que se senta no banco lilás?
Realmente quer roubar crianças?
E assim nascem as suspeitas.
Assim amadurecem os receios. Aceitar
a estrela alta inatingível,
quando se é Fausto, quando se é visionário?
E assim começam os ciganos.
É assim que se abrem, voando alto
sobre as cercas, onde estão as casas ausentes,
dos mares súbitos como suspiros.
É assim que nascerão os jambos.
Assim nas noites de Verão, de barriga
na areia, e a súplica: Seja!
Ameaçam a aurora com a tua pupila.
E até se atrevem a discutir com o sol.
SILÊNCIO
Ainda não é nascida.
É só canção e poesia,
E está em plena harmonia
Com tudo o que é vida.
O seio da onda arfa em paz,
Mas como um louco brilha o dia
E a espuma pálido-lilás
Jaz no azul-névoa da bacia.
Que em meus lábios pairasse
A quietude original
Como uma nota de cristal
Pura desde que nasce!
Volve … poesia e a canção,
Sê só espuma, Afrodite,
Coração, desdenha o coração
Que com vida coabite!
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quinta-feira, 15 de agosto de 2019
sexta-feira, 5 de outubro de 2018
Trecho do conto: A Cidade das almas adormecidas
Só a imaginação humana, em sua louca carreira ascendente às regiões do abstrato, pode colocar a Eros na abrupta montanha em que se achava.
Sobre a base de sua cúspide se estendia, como alguma coisa enigmática e inescrutável, a Cidade das Almas Adormecidas, onde moravam os “homens”.
E assim, em perpétua intangibilidade, viveu Eros por espaço de muitos séculos à margem dos que o haviam criado.
Mas chegou o dia em que o deus do Amor se transformou de divino em humano, e disse a seu coração:
– Estou cansado de minha solidão e destas alturas; quero descer até os homens e saber de que maneira vivem. Já é hora – seguiu dizendo – de que mitologia divina criada pelos gregos conheça algo que seja relativo ao mito humano universalizado.
E Eros, com passos firmes e longos, foi descendo da montanha até chegar ante as portas da grande Cidade das Almas Adormecidas. Sobre o pórtico havia uma inscrição, em que se lia: “Europa, Ásia, África, América e Oceania.”
– Alfa! – gritou Eros, e as portas se entreabriram.
O tempo (um ancião de longas barbas prateadas) fez a sua aparição naquele momento e perguntou-lhe:
– Que buscais entre os que dormem?
– Busco aos homens. Que me dizeis deles?
– E que poderia dizer-vos? Entrai e podereis apreciar como vivem, já que a isso chamam viver.
O Tempo abriu as portas, par a par, e Eros em companhia do ancião pôde penetrar no interior da Cidade das Almas Adormecidas.
Um odor húmido, penetrante, semelhante a infinidade de gerações reduzidas a pó, se percebia por todas as ruas e praças.
Sobre a base de um magnífico mausoléu, que servia de pedestal à figura de um herói morto em holocausto à pátria, jazia cravado um enorme ataúde.
– O que contém esta caixa? – perguntou Eros ao Tempo.
– Os restos das civilizações passadas- respondeu aquele.
– Das civilizações passadas?
– Sim, isto é, dos homens que, segundo eles trouxeram as primeiras luzes à Humanidade.
– Falaste de luzes resplendores*?
– Sim.
– Não compreendo. Minha vista é muito aguda e, não obstante, em redor, só vejo luzes extintas. Porém, vejamos – insistiu de novo Eros. – Quem dirigiu o Destino dos povos na Antiguidade?
– Sacerdotes, reis e imperadores. Que outros personagens podem fazê-lo? Eles legaram às gerações futuras páginas brilhantes para a História, nas quais as grandes conquistas de povos e continentes inteiros sucediam-se umas às outras com prodigiosa rapidez. A Antiguidade – seguiu dizendo o Tempo – foi pródiga em heróis. As condecorações choviam sobre o peito dos reis e imperadores como uma coisa prodigiosa.
Calou-se o Tempo.
Eros, entretanto, reflexionava sobre o que ouvia. E, finalmente, inclinou-se sobre o ataúde e, levantando a tampa, pôs-se a examinar o interior.
Ossos, túnicas e metais preciosos se confundiam em uma massa compacta; porém, o que mais chamou poderosamente a atenção de Eros foi um montão de coroas reais, cetros, cruzes oficiais e outras muitas condecorações de Estado que havia sobre um ângulo de caixa.
E, à vista de tantos ornamentos, pediu ao Tempo que o conduzisse a outros lugares menos silenciosos, porque alí começava a aborrecer-se.
Acedeu o tempo; porém, no momento em que se dispunham a abandonar o lugar, um furacão sacudiu violentamente o ataúde, despejando-o.
E produziu uma coisa assombrosa, imprevista.
Do interior daquele montão enorme de despojos, saíam, em estrepitosa sinfonia, gritos agudos, queixas, risadas de loucos.
Por debaixo dos escudos, coroas e demais ornamentos governamentais, corria um caudaloso rio de sangue humano, e, por entre o sussurro das águas rubras, percebiam-se mães desesperadas, um rumor surdo que era todo um poema de dor humana.
– Que significa tudo isso? – perguntou Eros aterrorizado.
– Significa o fruto, o resultado de todas as conquistas, de todas as vitórias do homem sobre si mesmo. – respondeu o Tempo.
E Eros disse ao próprio coração:
– Onde os homens só vêem louros e vitórias, unicamente, crimes.
– Feche esse ataúde – continuou – que só ossos e horrores contém, e deixemos os nossos antepassados dormindo eternamente, já que nos legaram, somente, obras defeituosas e monstruosos crimes. Sigamos ao lugar onde existem os homens vivos, se é que ainda existem nesta silenciosa cidade.
Passados instantes, achavam-se ambos ante enorme edifício, onde uma multidão informe movia-se ao compasso de um ritmo estranho.
Máquinas, muitas máquinas; buzinadas, fábricas, ateliês, homens, coisas: tudo se confundia naquele local em contínuo tropel.
E o Tempo, dirigindo-se a Eros, disse-lhe:
– Eis aqui os que vivem, os homens atuais. Vivem em sociedades dirigidas por um Estado.
A Cidade das almas adormecidas – FELIX LÁZARO
Vários autores. PRADO, Antonio Arnoni (org.); HARDMAN, Francisco Foot (org.); LEAL, Claudia Feierabent Baeta (org.). Contos anarquistas. Editora Martins Fontes.
domingo, 12 de novembro de 2017
Acracia
Nas águas daquela fonte
Lavei
Minha alma juvenil,
Que já não volta.
Águas inquinadas
Recusei…
Por não serem as águas
Cristalinas
Daquela fonte
Que abracei!
terça-feira, 31 de maio de 2016
Por que nós somos anarquistas?
Nós somos anarquistas, porque há vários séculos, temos
sido vítimas de todos os tipos de governos, que ao longo dessa tirania, foi
aparecendo mais um ladrão, mais um fanático, mais um assassino mais um déspota.
Nós somos anarquistas porque nós achamos que não existem
razões para ser explorado e para que tenhamos de trabalhar para que um grupo de
sem vergonhas se tornem milionários.
Nós somos anarquistas, porque não aceitamos nas leis que
são inventadas para assassinar e sufocar o nosso grito de protesto. Nós somos
anarquistas porque não acreditamos nas suas guerras, em suas pátrias, ou em
seus deuses. Nós somos anarquistas porque detestamos sua polícia, os seus
generais, reis e presidentes.
Nós somos anarquistas, porque, ao contrário deles,
sofremos com as desgraças humanas. Nós somos anarquistas, porque queremos vida
livre, saudável, de respeito mútuo e igualdade para os nossos filhos e filhas.
Nós somos anarquistas porque não aguentamos ver as lágrimas
de tantas pessoas boas, humildes, que têm sido enganadas geração após geração.
Nós somos anarquistas, porque estamos envergonhados desse sistema, em que
vemos, não só morte, mas: fome, prisões, repressão, desigualdade, e alienação
além de milhões de mentiras.
Nós somos anarquistas porque conhecemos o seu poder, a
sua força, seu terrorismo, a calúnia, vocês nos assassinam nos encarceram, nos
difamam.
Chamamos de terroristas, algumas pessoas que dominam
outras pessoas com bombas, tanques, armas, prisões, torturas e execuções,
hospitais psiquiátricos e a mentira do inferno. Dizem que Anarquia é o caos,
mas na sua sociedade capitalista é que vemos criminalidade, prostituição,
desigualdade, destruição, ao mesmo tempo: excesso de comida e milhões de seres
humanos morrendo de fome, bombardeios de povoados, cidades, países inteiros,
arrasam tudo com sua ganância causando pânico geral.
Sua ambição, seu egoísmo, sua burrice, Sua cegueira e
loucura pelo poder está destruindo a você mesmo, os seu filhos e seus netos não
vão querer lembrar de você, seu sistema está em caos porque é sustentado por
mentiras, terror, artigos, Códigos, leis, recompensas e punições.
É por isso que somos anarquistas, somos anarquistas para
mudar esta sociedade positivamente, para que você se cure dessa loucura
perigosa, Nós somos anarquistas, porque é necessário que haja alguém para
gritar suas atrocidades, porque não temos medo, como muitos não tiveram.
Nós somos anarquistas nas ruas, na prisão, na cadeira
elétrica, no julgamento e nos cemitérios.
Porque ser um anarquista é ser muitas coisas que você nem
compreende nem tem capacidade de entender, e assim, nos assassinam desde
séculos atrás, nos põem a culpa e nos aprisionam, alienam soldados e policias
para que vos defendam, usam de todas as artimanhas para nos derrubar, mas,
chegam a conclusão de que, para cada anarquista que vocês assassinam, nasce
outro.
Não iremos lhes perdoar, não jogaremos o seu jogo, somos
aqueles que não creem em suas promessas, dói em vocês quando defendemos a liberdade
e a igualdade, acreditamos na arte, no progresso, na educação, não precisamos
nem de deuses, nem mestres, acreditamos nos seres humanos, na Natureza, nos
direitos e deveres de cada um, queremos uma sociedade de paz, amor e respeito
mútuo, uma sociedade que não parece ser nada igual a sua, queremos uma
sociedade anarquista.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
KARL MARX: O TRABALHO ALIENADO
Consideramos até aqui a alienação, a espoliação do
operário, só sob um aspecto, o de sua relação com os produtos de seu trabalho.
Ora, a alienação não aparece somente no resultado, mas também no ato da
produção, no interior da própria atividade produtora. Como o operário não seria
estranho ao produto de sua atividade se, no próprio ato de produção, não se
tornasse estranho a si mesmo?
Com efeito, o produto é só o resumo da atividade
de produção. Se o produto do trabalho é espoliação, a própria produção deve ser
espoliação em ato, espoliação da atividade, atividade que espolia. A alienação
do objeto do trabalho é só o resumo da alienação, da espoliação, na própria
atividade do trabalho.
Ora em que consiste a espoliação do trabalho? Primeiro,
no fato de que o trabalho é exterior ao operário, isto é, que não pertence ao
seu ser; que, no seu trabalho, o operário não se afirma, mas se nega; que ele
não se sente satisfeito aí, mas infeliz; que ele não desdobra aí uma livre
energia física e intelectual, mas mortifica seu corpo e arruína seu espírito. É
por isso que o operário não tem o sentimento de estar em si senão fora do
trabalho; no trabalho, sente-se exterior a si mesmo.
É ele quando não trabalha
em, quando trabalha, não é ele. Seu trabalho não é voluntário, mas imposto.
Trabalho forçado, não é a satisfação de uma necessidade, mas somente um meio de
satisfazer necessidades fora do trabalho. A natureza alienada do trabalho
aparece nitidamente no fato de que, desde que não exista imposição física ou
outra, foge-se do trabalho como da peste.
O trabalho alienado, o trabalho no
qual o homem se espolia, é sacrifício de si, mortificação. Enfim, o operário
ressente a natureza exterior do trabalho pelo fato de que não é seu bem
próprio, mas o de outro, que não lhe pertence; que no trabalho o operário não
pertence a si mesmo, mas a outro.
Na religião, a atividade própria da
imaginação, do cérebro, do coração humano, opera no indivíduo independentemente
dele, isto é, como uma atividade estranha, divina ou diabólica. Do mesmo modo,
a atividade do operário não é sua atividade própria; pertence a outro, é perda
de si.
Chega-se então a esse resultado, que o homem (o operário)
só tem espontaneidade nas suas funções animais: o comer, o beber e a
procriação, talvez ainda na habitação, o adorno etc.; e que nas suas funções
humanas, só sente a animalidade: o que é animal torna-se humano e o que é
humano torna-se animal.
Sem dúvida, comer, beber, procriar, etc., são também
funções autenticamente humanas. Contudo, separadas do conjunto das atividades
humanas, erigidas em fins últimos e exclusivos, não são mais que funções
animais.
MARX, Ébauche d’une critique de l’economie
politique .Bibliothèque de la Pléiade, Gallimard, toomo II pp. 60-61. (esboço
de uma critica da economia política), Citado em: VV.AA. Os filósofos através
dos textos. De Platão a Sartre. [tradução Constança Terezinha M. César] São
Paulo: Paulus, 1997. p.250-251.
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