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quarta-feira, 3 de abril de 2019
Edgar Allan Poe: O Corvo
Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.
E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."
Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.
Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.
Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."
Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.
Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".
Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais".
No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"
Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais".
Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais".
Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranquilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.
Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais".
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais".
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: "Nunca mais."
“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais".
E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!
(Tradução de Machado de Assis)
domingo, 28 de maio de 2017
AUGUSTO DOS ANJOS - Poeta universal.
Psicologia de um Vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme -- este operário das ruínas --
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Versos Íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme -- este operário das ruínas --
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Versos Íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Edgar Allan Poe: O Corvo
Numa meia-noite agreste, quando eu
lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências
ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que
parecia
O som de algúem que batia levemente
a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está
batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”
Ah, que bem disso me lembro! Era no
frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia
sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a
noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje
entre hostes celestiais
Essa cujo nome sabem as hostes
celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada
reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores
nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu
ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui
em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em
meus umbrais.
É só isto, e nada mais”.
“Senhor”, eu disse, “ou senhora,
decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando
viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por
meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos,
franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei
perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os
ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz
profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome
cheio de ais –
Eu o disse, o nome dela, e o eco
disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro estão volvendo, toda a
alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som
batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha
é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que
são estes sinais.”
Meu coração se distraía pesquisando
estes sinais.
“É o vento, e nada mais.”
Abri então a vidraça, e eis que, com
muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos
bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não
parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou
sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por
sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez
sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares
rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse
eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas
infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas
trevas infernais.”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
Pasmei de ouvir este raro pássaro
falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem
palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém
terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos
meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há
por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.
Mas o corvo, sobre o busto, nada
mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma
lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e
eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, “Amigo,
sonhos – mortais
Todos – todos já se foram. Amanhão
também te vais”.
Disse o corvo, “Nunca mais”.
A alma súbito movida por frase tão
bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas
vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a
desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se
quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu
canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.
Mas, fazendo inda a ave escura
sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo
busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de
muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureia dos
maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus
tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.
Comigo isto discorrendo, mas nem
sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os
olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça
reclinando
No veludo onde a luz punha vagas
sobras desiguais,
Naquele veludo one ela, entre as
sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como
cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos
soam musicais.
“Maldito!”, a mim disse, “deu-te
Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o,
esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que
faz esses teus ais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou
demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te
trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta
noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a
esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta
alma a quem atrais!
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou
demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos
fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no
Édem de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes
celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes
celestiais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Que esse grito nos aparte, ave ou
diabo!”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna
às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira
que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de
meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra
de meus umbrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
E o corvo, na noite infinda, está
ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por
sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um
demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra
no chão há mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!
Tradução de Fernando Pessoa
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Charles Baudelaire: Embriagai-vos!
Deveis andar sempre embriagados.
Tudo consiste nisso: eis a única questão. Para não sentirdes o fardo horrível
do Tempo, que vos quebra as espáduas, vergando-vos para o chão, é preciso que
vos embriagueis sem descanso.
Mas, com quê? Com vinho, poesia, virtude. Como quiserdes. Mas, embriagai-vos.
E si, alguma vez, nos degraus de um palácio, na verde relva de uma vala, na
solidão morna de vosso quarto, despertardes com a embriaguez já diminuída ou
desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a
tudo o que foge, a tudo que gene, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo
o que fala, perguntai que horas são. E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o
relógio vos responderão:
- É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo,
embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como
quiserdes!
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Fazedores de poemas rápidos
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Ferreira Gullar: Poema obsceno
Façam a festa
cantem e dancem
que eu faço o poema duro
o poema-murro
sujo como a miséria brasileira
Não se detenham:
façam a festa
Bethânia Martinho
Clementina Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
gente de Vila Isabel e Madureira
todos
façam
a nossa festa
enquanto eu soco este pilão
este surdo
poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)
Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
- e espreitam.
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
João Cabral de Melo Neto: Serventia das ideias fixas
Quando aquele que os sofre
Trabalha com palavras,
são úteis o relógio, a bala e,
mais, a faca.
Os homens que em geral lidam
nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:
umas que se asfixiam
por debaixo do pó,
outras despercebidas
em meio a grandes nós;
palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal
Pois somente essa faca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário
e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente
o que em todas as facas
é a melhor qualidade:
a agudeza feroz,
certa eletricidade,
mais a violência limpa
que elas têm, tão exatas,
o gosto do deserto,
o estilo das facas
terça-feira, 5 de julho de 2016
Luigi Pirandello
Felizes as marionetes’, suspirei, ‘sobre cujas cabeças de
madeira o falso céu se conserva sem buracos! Nenhuma perplexidade angustiosa,
nem prudência, nem empecilho, nem sombra, nem piedade: nada! Podem atuar
bravamente e vivenciar com gosto sua comédia, e amar, e ter consideração e
respeito por si mesmas sem nunca sofrer de vertigens ou tonturas, pois para
seus tamanhos e atitudes aquele céu é um teto sob medida”. (O Falecido Mattia
Pascal)
O aspecto trágico da vida está justamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo necessário. E é essa escolha que organiza a nossa harmonia individual, o sentimento de nosso equilíbrio moral. É ela que constitui a tragédia e que faz com que os meus dramas não sejam simples farsas. Eles apresentam um lei de sacrifício: o sacrifício da multidão de vidas que poderíamos viver e que, no entanto, não vivemos.
quarta-feira, 1 de junho de 2016
FRANZ KAFKA: Diante da Lei
Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e
pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar
- lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais
tarde. -“É possível” – diz o guarda. -“Mas não agora!”. O guarda afasta-se
então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá
dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz. -“Se tanto te atrai, experimenta
entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara, sou forte. E ainda assim
sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes,
de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim”.
O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei
havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o
guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à
tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida
licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da
porta, um pouco desviado. Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para
entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez
em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas
outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferenca, à semelhança dos
grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo
entrar.O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios
custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo mas diz sempre: -“Aceito
apenas para que te convenças que nada omitiste”.
Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem
observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura ser-lhe o único obstáculo
à entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e
depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e
como, ao fim de tanto examinar o guada durante anos lhe conhece até as pulgas
das peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda.
Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu
redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão, um
clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está
próxima.
Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as
experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não
fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já
arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a
diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo.
-“Que queres tu saber ainda?”, pergunta o guarda. -“És insaciável”.
-“Se todos aspiram a Lei”, disse o homem. -“Como é que,
durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?”. O guarda
da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido
quase inerte: -“Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti
era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a”.
Franz Kafka, parte
da parte final do livro “O Processo”
terça-feira, 31 de maio de 2016
Por que nós somos anarquistas?
Nós somos anarquistas, porque há vários séculos, temos
sido vítimas de todos os tipos de governos, que ao longo dessa tirania, foi
aparecendo mais um ladrão, mais um fanático, mais um assassino mais um déspota.
Nós somos anarquistas porque nós achamos que não existem
razões para ser explorado e para que tenhamos de trabalhar para que um grupo de
sem vergonhas se tornem milionários.
Nós somos anarquistas, porque não aceitamos nas leis que
são inventadas para assassinar e sufocar o nosso grito de protesto. Nós somos
anarquistas porque não acreditamos nas suas guerras, em suas pátrias, ou em
seus deuses. Nós somos anarquistas porque detestamos sua polícia, os seus
generais, reis e presidentes.
Nós somos anarquistas, porque, ao contrário deles,
sofremos com as desgraças humanas. Nós somos anarquistas, porque queremos vida
livre, saudável, de respeito mútuo e igualdade para os nossos filhos e filhas.
Nós somos anarquistas porque não aguentamos ver as lágrimas
de tantas pessoas boas, humildes, que têm sido enganadas geração após geração.
Nós somos anarquistas, porque estamos envergonhados desse sistema, em que
vemos, não só morte, mas: fome, prisões, repressão, desigualdade, e alienação
além de milhões de mentiras.
Nós somos anarquistas porque conhecemos o seu poder, a
sua força, seu terrorismo, a calúnia, vocês nos assassinam nos encarceram, nos
difamam.
Chamamos de terroristas, algumas pessoas que dominam
outras pessoas com bombas, tanques, armas, prisões, torturas e execuções,
hospitais psiquiátricos e a mentira do inferno. Dizem que Anarquia é o caos,
mas na sua sociedade capitalista é que vemos criminalidade, prostituição,
desigualdade, destruição, ao mesmo tempo: excesso de comida e milhões de seres
humanos morrendo de fome, bombardeios de povoados, cidades, países inteiros,
arrasam tudo com sua ganância causando pânico geral.
Sua ambição, seu egoísmo, sua burrice, Sua cegueira e
loucura pelo poder está destruindo a você mesmo, os seu filhos e seus netos não
vão querer lembrar de você, seu sistema está em caos porque é sustentado por
mentiras, terror, artigos, Códigos, leis, recompensas e punições.
É por isso que somos anarquistas, somos anarquistas para
mudar esta sociedade positivamente, para que você se cure dessa loucura
perigosa, Nós somos anarquistas, porque é necessário que haja alguém para
gritar suas atrocidades, porque não temos medo, como muitos não tiveram.
Nós somos anarquistas nas ruas, na prisão, na cadeira
elétrica, no julgamento e nos cemitérios.
Porque ser um anarquista é ser muitas coisas que você nem
compreende nem tem capacidade de entender, e assim, nos assassinam desde
séculos atrás, nos põem a culpa e nos aprisionam, alienam soldados e policias
para que vos defendam, usam de todas as artimanhas para nos derrubar, mas,
chegam a conclusão de que, para cada anarquista que vocês assassinam, nasce
outro.
Não iremos lhes perdoar, não jogaremos o seu jogo, somos
aqueles que não creem em suas promessas, dói em vocês quando defendemos a liberdade
e a igualdade, acreditamos na arte, no progresso, na educação, não precisamos
nem de deuses, nem mestres, acreditamos nos seres humanos, na Natureza, nos
direitos e deveres de cada um, queremos uma sociedade de paz, amor e respeito
mútuo, uma sociedade que não parece ser nada igual a sua, queremos uma
sociedade anarquista.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
KARL MARX: O TRABALHO ALIENADO
Consideramos até aqui a alienação, a espoliação do
operário, só sob um aspecto, o de sua relação com os produtos de seu trabalho.
Ora, a alienação não aparece somente no resultado, mas também no ato da
produção, no interior da própria atividade produtora. Como o operário não seria
estranho ao produto de sua atividade se, no próprio ato de produção, não se
tornasse estranho a si mesmo?
Com efeito, o produto é só o resumo da atividade
de produção. Se o produto do trabalho é espoliação, a própria produção deve ser
espoliação em ato, espoliação da atividade, atividade que espolia. A alienação
do objeto do trabalho é só o resumo da alienação, da espoliação, na própria
atividade do trabalho.
Ora em que consiste a espoliação do trabalho? Primeiro,
no fato de que o trabalho é exterior ao operário, isto é, que não pertence ao
seu ser; que, no seu trabalho, o operário não se afirma, mas se nega; que ele
não se sente satisfeito aí, mas infeliz; que ele não desdobra aí uma livre
energia física e intelectual, mas mortifica seu corpo e arruína seu espírito. É
por isso que o operário não tem o sentimento de estar em si senão fora do
trabalho; no trabalho, sente-se exterior a si mesmo.
É ele quando não trabalha
em, quando trabalha, não é ele. Seu trabalho não é voluntário, mas imposto.
Trabalho forçado, não é a satisfação de uma necessidade, mas somente um meio de
satisfazer necessidades fora do trabalho. A natureza alienada do trabalho
aparece nitidamente no fato de que, desde que não exista imposição física ou
outra, foge-se do trabalho como da peste.
O trabalho alienado, o trabalho no
qual o homem se espolia, é sacrifício de si, mortificação. Enfim, o operário
ressente a natureza exterior do trabalho pelo fato de que não é seu bem
próprio, mas o de outro, que não lhe pertence; que no trabalho o operário não
pertence a si mesmo, mas a outro.
Na religião, a atividade própria da
imaginação, do cérebro, do coração humano, opera no indivíduo independentemente
dele, isto é, como uma atividade estranha, divina ou diabólica. Do mesmo modo,
a atividade do operário não é sua atividade própria; pertence a outro, é perda
de si.
Chega-se então a esse resultado, que o homem (o operário)
só tem espontaneidade nas suas funções animais: o comer, o beber e a
procriação, talvez ainda na habitação, o adorno etc.; e que nas suas funções
humanas, só sente a animalidade: o que é animal torna-se humano e o que é
humano torna-se animal.
Sem dúvida, comer, beber, procriar, etc., são também
funções autenticamente humanas. Contudo, separadas do conjunto das atividades
humanas, erigidas em fins últimos e exclusivos, não são mais que funções
animais.
MARX, Ébauche d’une critique de l’economie
politique .Bibliothèque de la Pléiade, Gallimard, toomo II pp. 60-61. (esboço
de uma critica da economia política), Citado em: VV.AA. Os filósofos através
dos textos. De Platão a Sartre. [tradução Constança Terezinha M. César] São
Paulo: Paulus, 1997. p.250-251.
terça-feira, 19 de abril de 2016
KARL MARX: A IDEOLOGIA ALEMÃ
Eis, pois os fatos: indivíduos determinados que têm
uma atividade produtiva segundo um modo determinado entram nas relações sociais
e políticas determinadas. É preciso que em cada caso isolado a observação
empírica mostre nos fatos, e sem nenhuma especulação nem mistificação, o laço
entre a estrutura social e política e a produção.
A estrutura social e o estado
resultam constantemente do processo vital de indivíduos determinados; mas
desses indivíduos, não tais como podem aparecer na sua própria representação ou
na de outro, mas tais como são na realidade, isto é, tais como operam e
produzem materialmente; logo, tais como agem nas bases e nas condições e
limites materiais determinados e independentes de sua vontade.
A produção das ideias, das representações e da
consciência está primeiro direta e intimamente misturada à atividade material e
ao comércio natural dos homens; ela é linguagem da vida real. As
representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens aparecem aí
ainda como a emanação direta de seu comportamento material. Dá-se o mesmo
quanto à produção intelectual tal qual se apresenta na língua da política, das
leis, da moral, da religião, da metafísica etc., de todo um povo.
São os homens
que são os produtores de suas representações, de suas ideias etc., mas os
homens reais, atuantes, tais como são condicionados por um desenvolvimento
determinado de suas forças positivas e das relações que lhes correspondem,
inclusive as formas mais amplas que estes podem assumir.
A consciência não pode
nunca ser outra coisa senão o ser consciente e o ser dos homens é seu processo
de vida real. E se, em toda ideologia, os homens e suas relações nos parecem
postos de cabeça para baixo como numa câmera escura, este fenômeno decorre de
seu processo de vida histórica, absolutamente como a inversão dos objetos na
retina decorre de seu processo de vida diretamente física.
Ao contrário da filosofia alemã que desce do céu à terra,
é da terra ao céu que se sobe aqui. Dito de outro modo, não partimos do que os
homens dizem, imaginam, representam, nem sequer do que são nas palavras, no
pensamento, na imaginação e na representação de outro, para chegar em seguida aos
homens em carne e osso; não, partimos dos homens em sua atividade real; é a
partir de seu processo de vida real que representamos também o desenvolvimento
dos reflexos e dos ecos ideológicos desse processo vital.
E mesmo as
fantasmagorias no cérebro humano são sublimações resultantes necessariamente do
processo de sua vida material que se pode constatar empiricamente e que repousa
em bases materiais.
Em consequência desse fato, a moral, a religião, a
metafísica e todo o resto da ideologia, assim como as formas de consciência que
lhe correspondem, perdem logo toda aparência de autonomia. Não têm história,
não têm desenvolvimento; são, ao contrário, os homens que, desenvolvendo sua
produção material e suas relações materiais, transformam, com esta realidade
que lhes é própria, seus pensamentos e os produtos do seu pensamento. Não é a
consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.
No
primeiro modo de considerar as coisas, parte-se da consciência como sendo
indivíduo vivo; no segundo modo, que corresponde à vida real, parte-se dos
próprios indivíduos reais e vivos e se considera a consciência unicamente como
sua consciência.
MARX, L’ideologie allemande, ( a ideologia alemã), 1ª
parte. Editions sociales, pp. 34-47 Citado em: VV.AA. Os filósofos através dos
textos. De Platão a Sartre. [tradução Constança Terezinha M. César] São Paulo:
Paulus, 1997. p.253-254.
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