VENTO
Eu acabei e tu estás viva.
E o vento, queixando-se e chorando,
abana a casa e as árvores à volta.
Não cada pinheiro isoladamente,
mas todas as árvores juntas
de todos os infinitos distantes,
como navios ao sabor das correntes
nas baías brilhantes ancorados.
E isso não por audácia
ou por frenesia insensata,
mas para na melancolia encontrar as palavras
para a tua canção de embalar.
É assim que começam. Pelos dois anos
separam-se da ama para o enigma das melodias,
gorjeiam, assobiam, - e as palavras
surgem por volta dos três anos.
É assim que começam a entender.
E no ruído pior que uma turbina
parece que a mãe não é mãe,
que eles não são eles e a casa é outra.
Que fazer da terrível beleza
que se senta no banco lilás?
Realmente quer roubar crianças?
E assim nascem as suspeitas.
Assim amadurecem os receios. Aceitar
a estrela alta inatingível,
quando se é Fausto, quando se é visionário?
E assim começam os ciganos.
É assim que se abrem, voando alto
sobre as cercas, onde estão as casas ausentes,
dos mares súbitos como suspiros.
É assim que nascerão os jambos.
Assim nas noites de Verão, de barriga
na areia, e a súplica: Seja!
Ameaçam a aurora com a tua pupila.
E até se atrevem a discutir com o sol.
SILÊNCIO
Ainda não é nascida.
É só canção e poesia,
E está em plena harmonia
Com tudo o que é vida.
O seio da onda arfa em paz,
Mas como um louco brilha o dia
E a espuma pálido-lilás
Jaz no azul-névoa da bacia.
Que em meus lábios pairasse
A quietude original
Como uma nota de cristal
Pura desde que nasce!
Volve … poesia e a canção,
Sê só espuma, Afrodite,
Coração, desdenha o coração
Que com vida coabite!
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quinta-feira, 15 de agosto de 2019
quinta-feira, 4 de abril de 2019
CLARICE LISPECTOR
O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Dois poemas anarquistas!
Avante!
Vós que tendes a vida torturada
Pelo jugo mordaz da burguesia;
Vós que horrores sofreis dia por dia
Dessa turba cruel, envenenada;
Vós que a razão sentis amordaçada
Pelo grito brutal da Tirania,
Tempo é já de abater a covardia
E da turba abafar a gargalhada!...
Levantai-vos do charco apodrecido!
Sejai firmes na Grande Trajetória,
Reivindicai o tempo já perdido!...
Avante, ó paladinos do Crisol,
Que além desvendará nossa vitória,
Através da brancura d'outro Sol!...
Antonio Rocha, 01/09/1914
Pelo jugo mordaz da burguesia;
Vós que horrores sofreis dia por dia
Dessa turba cruel, envenenada;
Vós que a razão sentis amordaçada
Pelo grito brutal da Tirania,
Tempo é já de abater a covardia
E da turba abafar a gargalhada!...
Levantai-vos do charco apodrecido!
Sejai firmes na Grande Trajetória,
Reivindicai o tempo já perdido!...
Avante, ó paladinos do Crisol,
Que além desvendará nossa vitória,
Através da brancura d'outro Sol!...
Antonio Rocha, 01/09/1914
O Amor
Aí tendes o Amor do século pujante,
A portentosa lei que há-de reger o mundo,
Quando o sol, que hoje rompe apenas no levante,
Atingir do zenite o páramo fecundo.
É forçoso que após a morte desastrosa
Das divindades vãs, fantásticas de outrora
Se eleve, como um astro, a crença luminosa
De uma igreja maior, mais forte e duradoura.
Seja pois o universo a Grande Igreja
Onde o novo ritual em pompas de Thabor
Se célebre, e cada um o sacerdote seja,
E cada peito o altar da religião do Amor.
Augusto de Lima, 26/06/2014
A portentosa lei que há-de reger o mundo,
Quando o sol, que hoje rompe apenas no levante,
Atingir do zenite o páramo fecundo.
É forçoso que após a morte desastrosa
Das divindades vãs, fantásticas de outrora
Se eleve, como um astro, a crença luminosa
De uma igreja maior, mais forte e duradoura.
Seja pois o universo a Grande Igreja
Onde o novo ritual em pompas de Thabor
Se célebre, e cada um o sacerdote seja,
E cada peito o altar da religião do Amor.
Augusto de Lima, 26/06/2014
terça-feira, 5 de julho de 2016
Luigi Pirandello
Felizes as marionetes’, suspirei, ‘sobre cujas cabeças de
madeira o falso céu se conserva sem buracos! Nenhuma perplexidade angustiosa,
nem prudência, nem empecilho, nem sombra, nem piedade: nada! Podem atuar
bravamente e vivenciar com gosto sua comédia, e amar, e ter consideração e
respeito por si mesmas sem nunca sofrer de vertigens ou tonturas, pois para
seus tamanhos e atitudes aquele céu é um teto sob medida”. (O Falecido Mattia
Pascal)
O aspecto trágico da vida está justamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo necessário. E é essa escolha que organiza a nossa harmonia individual, o sentimento de nosso equilíbrio moral. É ela que constitui a tragédia e que faz com que os meus dramas não sejam simples farsas. Eles apresentam um lei de sacrifício: o sacrifício da multidão de vidas que poderíamos viver e que, no entanto, não vivemos.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Não há Vagas
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira
Ferreira Gullar, in 'Antologia Poética'
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
HENRY MILLER
(...) Sinto o mundo inteiro embaixo de mim, um mundo vacilante
e desmoronante, um mundo gasto e polido como o crânio de leproso. Se houvesse
um homem que ousasse dizer tudo quanto pensa deste mundo, não lhe restaria um
palmo quadrado de terra onde ficar. Quando um homem assim aparece, o mundo cai
sobre ele e quebra-lhe a espinha. Restam sempre em pé pilares apodrecidos
demais, humanidade supurada demais para que o homem possa florescer.
A superestrutura é uma mentira e o alicerce é um medo enorme
e trêmulo. Se com intervalos de séculos aparece um homem de olhar desesperado e
faminto, um homem que vira o mundo de cabeça para baixo a fim de criar uma nova
raça, o amor que ele traz ao mundo é transformado em fel e ele se torna um
flagelo.
Se de vez em quando encontramos páginas que explodem,
páginas que ferem e queimam, arrancam gemidos, lágrimas e pragas, sabemos que
elas provêm de um homem com as costas na parede, um homem cuja única defesa
restante são suas palavras, e suas palavras são sempre mais fortes que o peso
mentiroso e esmagador do mundo, mais
fortes que todos os ecúleos e rodas que os covardes inventam para esmagar o
milagre da personalidade.
Se algum homem ousasse traduzir tudo quanto há em seu
coração, expressar o que é realmente sua experiência, o que é realmente sua
verdade, penso que o mundo se despedaçaria, que se reduziria a pedacinhos e
nenhum deus, nenhum acidente, nenhuma vontade poderia jamais reunir novamente
os pedaços, os átomos, os elementos indestrutíveis que entraram na formação do
mundo. (Trópico de Câncer)
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Guimarães Rosa: A Terceira Margem do Rio
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido
assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas
pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não
figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só
quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha
irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si
uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de
vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o
remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo,
própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou
muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia
propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no
tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí
se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a
forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a
gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma
recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu
somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique,
você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim,
me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas
obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito
perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só
retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás.
Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na
canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por
igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só
executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio,
sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa
verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.
Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente
conselho.
Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de
nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto
de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por
escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para
outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias
se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do
afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar
terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio,
solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos,
assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e,
ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se
condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada
dia, um tanto de comida furtada: a ideia que senti, logo na primeira noite, quando
o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto
que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci,
com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de
uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no
fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez
sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de
bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos
a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só
se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas,
para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda
e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre
que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso
pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para
medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava
ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à
pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que
trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se
desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há,
por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente
mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria,
e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás
meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma,
como ele aguentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e
nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na
cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do
viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não
pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto,
ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não
armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou
um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente
depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do
barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força
dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes,
no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o
perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de
espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também,
não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter
esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar
de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente
imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no
gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte,
nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do
temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais
parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de
unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pelos, com o aspecto de
bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de
tempos em tempos fornecia.
Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto
mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom
procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer
assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade.
Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que,
então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no
não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma
entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi
num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento,
ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os
dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã
chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu
irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar
depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com
minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia
querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de
mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja
que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava
que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele
aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse,
fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por
ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não
estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado
que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me
entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns
primeiros cabelos brancos.
Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha
tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o
rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o
demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços,
perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão
idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa
emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar
horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e
morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o
culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas
fossem outras. E fui tomando ideia.
Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra
doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava
ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um
lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por
fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de
grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado,
tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu
tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora
mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na
canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E
eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e
feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu
não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num
procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E
estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou
homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei
que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então,
ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa
canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo,
rio a fora, rio a dentro — o rio.
Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", cuja compra e leitura
recomendamos.
quarta-feira, 22 de julho de 2015
A sereníssima República (Conferência do cônego Vargas)
Antes de comunicar-vos uma descoberta, que
reputo de algum lustre para o nosso país, deixai que vos agradeça a prontidão
com que acudisses ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe
aqui; mas não ignoro também, - e fora ingratidão ignorá-lo, - que um pouco de
simpatia pessoal se mistura à vossa legítima curiosidade científica. Oxalá
possa eu corresponder a ambas. Minha descoberta não é recente; data do fim do
ano de 1876. Não a divulguei então, - e, a não ser o Globo, interessante diário
desta capital, não a divulgaria ainda agora, - por uma razão que achará fácil
entrada no vosso espírito. Esta obra de que venho falar-vos, carece de retoques
últimos, de verificações e experiências complementares. Mas o Globo noticiou
que um sábio inglês descobriu a linguagem fônica dos insetos, e cita o estudo
feito com as moscas. Escrevi logo para a Europa e aguardo as respostas com
ansiedade. Sendo certo, porém, que pela navegação aérea, invento do padre
Bartolomeu, é glorificado o nome estrangeiro, enquanto o do nosso patrício mal
se pode dizer lembrado dos seus naturais, determinei evitar a sorte do insigne
Voador, vindo a esta tribuna, proclamar alto e bom som, à face do universo, que
muito antes daquele sábio, e fora das ilhas britânicas, um modesto naturalista
descobriu coisa idêntica, e fez com ela obra superior.
Senhores, vou
assombrar-vos, como teria assombrado a Aristóteles, se lhe perguntasse: Credes
que se possa dar um regime social às aranhas? Aristóteles responderia
negativamente, com vós todos, porque é impossível crer que jamais se chegasse a
organizar socialmente esse articulado arisco, solitário, apenas disposto ao
trabalho, e dificilmente ao amor. Pois bem, esse impossível fi-lo eu. Ouço um
riso, no meio do sussurro de curiosidade. Senhores, cumpre vencer os
preconceitos. A aranha parece-vos inferior, justamente porque não a conheceis.
Amais o cão, prezais o gato e a galinha, e não advertis que a aranha não pula
nem ladra como o cão, não mia como o gato, não cacareja como a galinha, não
zune nem morde como o mosquito, não nos leva o sangue e o sono como a pulga.
Todos esses bichos são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo. A mesma
formiga, tão gabada por certas qualidades boas, dá no nosso açúcar e nas nossas
plantações, e funda a sua propriedade roubando a alheia. A aranha, senhores,
não nos aflige nem defrauda; apanha as moscas, nossas inimigas, fia, tece,
trabalha e morre. Que melhor exemplo de paciência, de ordem, de previsão, de
respeito e de humanidade? Quanto aos seus talentos, não há duas opiniões. Desde
Plínio até Darwin, os naturalistas do mundo inteiro formam um só coro de
admiração em torno desse bichinho, cuja maravilhosa teia a vassoura
inconsciente do vosso criado destrói em menos de um minuto. Eu repetiria agora
esses juízos, se me sobrasse tempo; a matéria, porém, excede o prazo, sou
constrangido a abreviá-la. Tenho-os aqui, não todos, mas quase todos; tenho,
entre eles, esta excelente monografia de Büchner, que com tanta subtileza
estudou a vida psíquica dos animais.
Citando
Darwin e Büchner, é claro que me restrinjo à homenagem cabida a dois sábios de
primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as
teorias gratuitas e errôneas do materialismo. Sim, senhores, descobri uma
espécie araneida que dispõe do uso da fala; coligi alguns, depois muitos dos
novos articulados, e organizei-os socialmente. O primeiro exemplar dessa aranha
maravilhosa apareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876. Era tão vasta, tão
colorida, dorso rubro, com listras azuis, transversais, tão rápida nos
movimentos, e às vezes tão alegre, que de todo me cativou a atenção.
No dia
seguinte vieram mais três, e as quatro tomaram posse de um recanto de minha
chácara. Estudei-as longamente; achei-as admiráveis. Nada, porém, se pode
comparar ao pasmo que me causou a descoberta do idioma araneida, uma língua,
senhores, nada menos que uma língua rica e variada, com a sua estrutura
sintáxica, os seus verbos, conjugações, declinações, casos latinos e formas
onomatopaicas, uma língua que estou gramaticando para uso das academias, como o
fiz sumariamente para meu próprio uso. E fi-lo, notai bem, vencendo
dificuldades aspérrimas com uma paciência extraordinária. Vinte vezes
desanimei; mas o amor da ciência dava-me forças para arremeter a um trabalho
que, hoje declaro, não chegaria a ser feito duas vezes na vida do mesmo homem.
Guardo para outro recinto a descrição técnica do meu arácnide, e a análise da
língua. O objeto desta conferência é, como disse, ressalvar os direitos da
ciência brasileira, por meio de um protesto em tempo; e, isto feito, dizer-vos
a parte em que reputo a minha obra superior à do sábio de Inglaterra. Devo
demonstrá-lo, e para este ponto chamo a vossa atenção. Dentro de um mês tinha
comigo vinte aranhas; no mês seguinte cinquenta e cinco; em março de 1877
contava quatrocentas e noventa.
Duas forças
serviram principalmente à empresa de as congregar: - o emprego da língua delas,
desde que pude discerni-la um pouco, e o sentimento de terror que lhes infundi.
A minha estatura, as vestes talares, o uso do mesmo idioma, fizeram-lhes crer
que era eu o deus das aranhas, e desde então adoraram-me. E vede o benefício
desta ilusão. Como as acompanhasse com muita atenção e miudeza, lançando em um
livro as observações que fazia, cuidaram que o livro era o registro dos seus
pecados, e fortaleceram-se ainda mais na prática das virtudes. A flauta também
foi um grande auxiliar. Como sabeis, ou deveis saber, elas são doidas por
música. Não bastava associá-las; era preciso, dar-lhes um governo idôneo.
Hesitei na escolha; muitos dos atuais pareciam-me bons, alguns excelentes, mas
todos tinham contra si o existirem. Explico-me.
Uma forma vigente de governo ficava exposta a
comparações que poderiam amesquinhá-la. Era-me preciso, ou achar uma forma
nova, ou restaurar alguma outra abandonada. Naturalmente adotei o segundo
alvitre, e nada me pareceu mais acertado do que uma república, à maneira de
Veneza, o mesmo molde, e até o mesmo epíteto. Obsoleto, sem nenhuma analogia,
em suas feições gerais, com qualquer outro governo vivo, cabia-lhe ainda a
vantagem de um mecanismo complicado, - o que era meter à prova as aptidões
políticas da jovem sociedade. Outro motivo determinou a minha escolha. Entre os
diferentes modos eleitorais da antiga Veneza, figurava o do saco e bolas,
iniciação dos filhos da nobreza no serviço do Estado. Metiam-se as bolas com os
nomes dos candidatos no saco, e extraía-se anualmente um certo número, ficando
os eleitos desde logo aptos para as carreiras públicas.
Este sistema
fará rir aos doutores do sufrágio; a mim não. Ele exclui os desvarios da
paixão, os desazos da inépcia, o congresso da corrupção e da cobiça. Mas não
foi só por isso que o aceitei; tratando-se de um povo tão exímio na fiação de
suas teias, o uso do saco eleitoral era de fácil adaptação, quase uma planta
indígena. A proposta foi aceita. Sereníssima República pareceu-lhes um título
magnífico, roçagante, expansivo, próprio a engrandecer a obra popular. Não
direi, senhores, que a obra chegou à perfeição, nem que lá chegue tão cedo. Os
meus pupilos não são os solários de Campanela ou os utopistas de Morus; formam
um povo recente, que não pode trepar de um salto ao cume das nações seculares.
Nem o tempo é operário que ceda a outro a lima ou o alvião; ele fará mais e
melhor do que as teorias do papel, válidas no papel e mancas na prática. O que
posso afirmar-vos é que, não obstante as incertezas da idade, eles caminham,
dispondo de algumas virtudes, que presumo essenciais à duração de um Estado.
Uma delas, como já disse, é a perseverança, uma longa paciência de Penélope,
segundo vou mostrar-vos. Com efeito, desde que compreenderam que no ato
eleitoral estava a base da vida pública, trataram de o exercer com a maior
atenção. O fabrico do saco foi uma obra nacional. Era um saco de cinco
polegadas de altura e três de largura, tecido com os melhores fios, obra sólida
e espessa. Para compô-lo foram aclamadas dez damas principais, que receberam o título
de mães da república, além de outros privilégios e foros. Uma obra-prima,
podeis crê- lo.
O processo
eleitoral é simples. As bolas recebem os nomes dos candidatos, que provarem
certas condições, e são escritas por um oficial público, denominado "das
inscrições". No dia da eleição, as bolas são metidas no saco e tiradas
pelo oficial das extrações, até perfazer o número dos elegendos. Isto que era
um simples processo inicial na antiga Veneza, serve aqui ao provimento de todos
os cargos. A eleição fez-se a princípio com muita regularidade; mas, logo
depois, um dos legisladores declarou que ela fora viciada, por terem entrado no
saco duas bolas com o nome do mesmo candidato. A assembleia verificou a
exatidão da denúncia, e decretou que o saco, até ali de três polegadas de
largura, tivesse agora duas; limitando-se a capacidade do saco, restringia- se
o espaço à fraude, era o mesmo que suprimi-la. Aconteceu, porém, que na eleição
seguinte, um candidato deixou de ser inscrito na competente bola, não se sabe se
por descuido ou intenção do oficial público. Este declarou que não se lembrava
de ter visto o ilustre candidato, mas acrescentou nobremente que não era
impossível que ele lhe tivesse dado o nome; neste caso não houve exclusão, mas
distração. A assembléia, diante de um fenômeno psicológico inelutável, como é a
distração, não pôde castigar o oficial; mas, considerando que a estreiteza do
saco podia dar lugar a exclusões odiosas, revogou a lei anterior e restaurou as
três polegadas. Nesse ínterim, senhores, faleceu o primeiro magistrado, e três
cidadãos apresentaram-se candidatos ao posto, mas só dois importantes, Hazeroth
e Magog, os próprios chefes do partido retilíneo e do partido curvilíneo.
Devo
explicar-vos estas denominações. Como eles são principalmente geômetras, é a
geometria que os divide em política. Uns entendem que a aranha deve fazer as
teias com fios retos, é o partido retilíneo; - outros pensam, ao contrário, que
as teias devem ser trabalhadas com fios curvos, - é o partido curvilíneo. Há ainda
um terceiro partido, misto e central, com este postulado: - as teias devem ser
urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-curvilíneo; e finalmente,
uma quarta divisão política, o partido anti-reto-curvilíneo, que fez tábua rasa
de todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar,
obra transparente e leve, em que não há linhas de espécie alguma. Como a
geometria apenas poderia dividi-los, sem chegar a apaixoná-los, adotaram uma
simbólica. Para uns, a linha reta exprime os bons sentimentos, a justiça, a
probidade, a inteireza, a constância, etc., ao passo que os sentimentos ruins
ou inferiores, como a bajulação, a fraude, a deslealdade, a perfídia, são
perfeitamente curvos. Os adversários respondem que não, que a linha curva é a
da virtude e do saber, porque é a expressão da modéstia e da humildade; ao
contrário, a ignorância, a presunção, a toleima, a parlapatice, são retas,
duramente retas.
O terceiro
partido, menos anguloso, menos exclusivista, desbastou a exageração de uns e
outros, combinou os contrastes, e proclamou a simultaneidade das linhas como a
exata cópia do mundo físico e moral. O quarto limita-se a negar tudo. Nem
Hazeroth nem Magog foram eleitos. As suas bolas saíram do saco, é verdade, mas
foram inutilizadas, a do primeiro por faltar a primeira letra do nome, a do
segundo por lhe faltar a última. O nome restante e triunfante era o de um
argentário ambicioso, político obscuro, que subiu logo à poltrona ducal, com
espanto geral da república. Mas os vencidos não se contentaram de dormir sobre
os louros do vencedor; requereram uma devassa.
A devassa
mostrou que o oficial das inscrições intencionalmente viciara a ortografia de
seus nomes. O oficial confessou o defeito e a intenção; mas explicou-os dizendo
que se tratava de uma simples elipse; delito, se o era, puramente literário.
Não sendo possível perseguir ninguém por defeitos de ortografia ou figuras de
retórica, pareceu acertado rever a lei. Nesse mesmo dia ficou decretado que o
saco seria feito de um tecido de malhas, através das quais as bolas pudessem
ser lidas pelo público, e, ipso facto, pelos mesmos candidatos, que assim
teriam tempo de corrigir as inscrições. Infelizmente, senhores, o comentário da
lei é a eterna malícia. A mesma porta aberta à lealdade serviu à astúcia de um
certo Nabiga, que se conchavou com o oficial das extrações, para haver um lugar
na assembleia. A vaga era uma, os candidatos três; o oficial extraiu as bolas
com os olhos no cúmplice, que só deixou de abanar negativamente a cabeça, quando
a bola pegada foi a sua. Não era preciso mais para condenar a ideia das malhas.
A assembleia, com exemplar paciência, restaurou o tecido espesso do regime
anterior; mas, para evitar outras elipses, decretou a validação das bolas cuja
inscrição estivesse incorreta, uma vez que cinco pessoas jurassem ser o nome
inscrito o próprio nome do candidato. Este novo estatuto deu lugar a um caso
novo e imprevisto, como ides ver. Tratou-se de eleger um coletor de espórtulas,
funcionário encarregado de cobrar as rendas públicas, sob a forma de espórtulas
voluntárias. Eram candidatos, entre outros, um certo Caneca e um certo
Nebraska. A bola extraída foi a de Nebraska. Estava errada, é certo, por lhe
faltar a última letra; mas, cinco testemunhas juraram, nos termos da lei, que o
eleito era o próprio e único Nebraska da república. Tudo parecia findo, quando
o candidato Caneca requereu provar que a bola extraída não trazia o nome de
Nebraska, mas o dele.
O juiz de paz
deferiu ao peticionário. Veio então um grande filólogo, - talvez o primeiro da
república, além de bom metafísico, e não vulgar matemático, - o qual provou a
coisa nestes termos: - Em primeiro lugar, disse ele, deveis notar que não é
fortuita a ausência da última letra do nome Nebraska. Por que motivo foi ele
inscrito incompletamente? Não se pode dizer que por fadiga ou amor da
brevidade, pois só falta a última letra, um simples a. Carência de espaço?
Também não; vede: há ainda espaço para duas ou três sílabas. Logo, a falta é
intencional, e a intenção não pode ser outra, senão chamar a atenção do leitor
para a letra k, última escrita, desamparada, solteira, sem sentido. Ora, por um
efeito mental, que nenhuma lei destruiu, a letra reproduz-se no cérebro de dois
modos, a forma gráfica e a forma sônica: k e ca. O defeito, pois, no nome
escrito, chamando os olhos para a letra final, incrusta desde logo no cérebro,
esta primeira sílaba: Ca. Isto posto, o movimento natural do espírito é ler o
nome todo; volta-se ao princípio, à inicial ne, do nome Nebrask. - Cané. -
Resta a sílaba do meio, bras, cuja redução a esta outra sílaba ca, última do
nome Caneca, é a coisa mais demonstrável do mundo. E, todavia, não a
demonstrarei, visto faltar-vos o preparo necessário ao entendimento da
significação espiritual ou filosófica da sílaba, suas origens e efeitos, fases,
modificações, conseqüências lógicas e sintáxicas, dedutivas ou indutivas,
simbólicas e outras. Mas, suposta a demonstração, aí fica a última prova,
evidente, clara, da minha afirmação primeira pela anexação da sílaba ca às duas
Cane, dando este nome Caneca.
A lei
emendou-se, senhores, ficando abolida a faculdade da prova testemunhal e
interpretativa dos textos, e introduzindo-se uma inovação, o corte simultâneo
de meia polegada na altura e outra meia na largura do saco. Esta emenda não
evitou um pequeno abuso na eleição dos alcaides, e o saco foi restituído às
dimensões primitivas, dando-se-lhe, todavia, a forma triangular. Compreendeis
que esta forma trazia consigo, uma conseqüência: ficavam muitas bolas no fundo.
Daí a mudança para a forma cilíndrica; mais tarde deu-se-lhe o aspecto de uma
ampulheta, cujo inconveniente se reconheceu ser igual ao triângulo, e então
adotou-se a forma de um crescente, etc. Muitos abusos, descuidos e lacunas
tendem a desaparecer, e o restante terá igual destino, não inteiramente,
decerto, pois a perfeição não é deste mundo, mas na medida e nos termos do
conselho de um dos mais circunspectos cidadãos da minha república, Erasmus,
cujo último discurso sinto não poder dar-vos integralmente. Encarregado de
notificar a última resolução legislativa às dez damas incumbidas de urdir o
saco eleitoral, Erasmus contou-lhes a fábula de Penélope, que fazia e desfazia
a famosa teia, à espera do esposo Ulisses. - Vós sois a Penélope da nossa
república, disse ele ao terminar; tendes a mesma castidade, paciência e
talentos. Refazei o saco, amigas minhas, refazei o saco, até que Ulisses,
cansado de dar às pernas, venha tomar entre nós o lugar que lhe cabe. Ulisses é
a Sapiência.
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quinta-feira, 4 de junho de 2015
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas
tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou
lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Outras lembranças
Talvez nem lembre teu nome.
Posso, quem sabe, nos devaneios que ora a distância impõe,
Ante a destemperança de antonomásias,
Ter perfilhado qualquer perífrase que pudesse lhe atribuir
um codinome.
E essa, reconheço, seria, sem dúvida, a incapacidade que
acalento.
Contudo, lembro o quanto eras bela.
Lembro-me do desatino que teu sorriso provoca
E ainda me sinto mirar pelos teus olhos irradiando desejos
E lembro, sem cessar, que em pouquíssimas mulheres
Havia um anseio tão grandioso pela liberdade.
Disso eu me lembro.
Aliás, porque seria preciso lembrar-se de alguma coisa mais,
Se na velocidade dos acontecimentos, eu fui atraído para a
tua direção?
Do Livro A Vela Na Demasia de Vento.
Adão Lima de Souza
quarta-feira, 29 de abril de 2015
POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem
tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles,
tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu, tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às crianças de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda gente que conheço e
que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipes – na vida…
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de
alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há nesse largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há nesse largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de
semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil
e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não
os terem amado,
Podem ter sidos traídos – mas ridículos nunca!
Podem ter sidos traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Fernando Pessoa
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