Psicologia de um Vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme -- este operário das ruínas --
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Versos Íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
domingo, 28 de maio de 2017
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Edgar Allan Poe: O Corvo
Numa meia-noite agreste, quando eu
lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências
ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que
parecia
O som de algúem que batia levemente
a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está
batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”
Ah, que bem disso me lembro! Era no
frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia
sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a
noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje
entre hostes celestiais
Essa cujo nome sabem as hostes
celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada
reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores
nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu
ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui
em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em
meus umbrais.
É só isto, e nada mais”.
“Senhor”, eu disse, “ou senhora,
decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando
viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por
meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos,
franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei
perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os
ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz
profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome
cheio de ais –
Eu o disse, o nome dela, e o eco
disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro estão volvendo, toda a
alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som
batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha
é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que
são estes sinais.”
Meu coração se distraía pesquisando
estes sinais.
“É o vento, e nada mais.”
Abri então a vidraça, e eis que, com
muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos
bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não
parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou
sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por
sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez
sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares
rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse
eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas
infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas
trevas infernais.”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
Pasmei de ouvir este raro pássaro
falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem
palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém
terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos
meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há
por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.
Mas o corvo, sobre o busto, nada
mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma
lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e
eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, “Amigo,
sonhos – mortais
Todos – todos já se foram. Amanhão
também te vais”.
Disse o corvo, “Nunca mais”.
A alma súbito movida por frase tão
bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas
vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a
desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se
quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu
canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.
Mas, fazendo inda a ave escura
sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo
busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de
muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureia dos
maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus
tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.
Comigo isto discorrendo, mas nem
sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os
olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça
reclinando
No veludo onde a luz punha vagas
sobras desiguais,
Naquele veludo one ela, entre as
sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como
cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos
soam musicais.
“Maldito!”, a mim disse, “deu-te
Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o,
esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que
faz esses teus ais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou
demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te
trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta
noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a
esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta
alma a quem atrais!
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou
demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos
fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no
Édem de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes
celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes
celestiais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
“Que esse grito nos aparte, ave ou
diabo!”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna
às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira
que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de
meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra
de meus umbrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.
E o corvo, na noite infinda, está
ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por
sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um
demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra
no chão há mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!
Tradução de Fernando Pessoa
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Charles Baudelaire: Embriagai-vos!
Deveis andar sempre embriagados.
Tudo consiste nisso: eis a única questão. Para não sentirdes o fardo horrível
do Tempo, que vos quebra as espáduas, vergando-vos para o chão, é preciso que
vos embriagueis sem descanso.
Mas, com quê? Com vinho, poesia, virtude. Como quiserdes. Mas, embriagai-vos.
E si, alguma vez, nos degraus de um palácio, na verde relva de uma vala, na
solidão morna de vosso quarto, despertardes com a embriaguez já diminuída ou
desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a
tudo o que foge, a tudo que gene, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo
o que fala, perguntai que horas são. E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o
relógio vos responderão:
- É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo,
embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como
quiserdes!
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quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Dois poemas anarquistas!
Avante!
Vós que tendes a vida torturada
Pelo jugo mordaz da burguesia;
Vós que horrores sofreis dia por dia
Dessa turba cruel, envenenada;
Vós que a razão sentis amordaçada
Pelo grito brutal da Tirania,
Tempo é já de abater a covardia
E da turba abafar a gargalhada!...
Levantai-vos do charco apodrecido!
Sejai firmes na Grande Trajetória,
Reivindicai o tempo já perdido!...
Avante, ó paladinos do Crisol,
Que além desvendará nossa vitória,
Através da brancura d'outro Sol!...
Antonio Rocha, 01/09/1914
Pelo jugo mordaz da burguesia;
Vós que horrores sofreis dia por dia
Dessa turba cruel, envenenada;
Vós que a razão sentis amordaçada
Pelo grito brutal da Tirania,
Tempo é já de abater a covardia
E da turba abafar a gargalhada!...
Levantai-vos do charco apodrecido!
Sejai firmes na Grande Trajetória,
Reivindicai o tempo já perdido!...
Avante, ó paladinos do Crisol,
Que além desvendará nossa vitória,
Através da brancura d'outro Sol!...
Antonio Rocha, 01/09/1914
O Amor
Aí tendes o Amor do século pujante,
A portentosa lei que há-de reger o mundo,
Quando o sol, que hoje rompe apenas no levante,
Atingir do zenite o páramo fecundo.
É forçoso que após a morte desastrosa
Das divindades vãs, fantásticas de outrora
Se eleve, como um astro, a crença luminosa
De uma igreja maior, mais forte e duradoura.
Seja pois o universo a Grande Igreja
Onde o novo ritual em pompas de Thabor
Se célebre, e cada um o sacerdote seja,
E cada peito o altar da religião do Amor.
Augusto de Lima, 26/06/2014
A portentosa lei que há-de reger o mundo,
Quando o sol, que hoje rompe apenas no levante,
Atingir do zenite o páramo fecundo.
É forçoso que após a morte desastrosa
Das divindades vãs, fantásticas de outrora
Se eleve, como um astro, a crença luminosa
De uma igreja maior, mais forte e duradoura.
Seja pois o universo a Grande Igreja
Onde o novo ritual em pompas de Thabor
Se célebre, e cada um o sacerdote seja,
E cada peito o altar da religião do Amor.
Augusto de Lima, 26/06/2014
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Ferreira Gullar: Poema obsceno
Façam a festa
cantem e dancem
que eu faço o poema duro
o poema-murro
sujo como a miséria brasileira
Não se detenham:
façam a festa
Bethânia Martinho
Clementina Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
gente de Vila Isabel e Madureira
todos
façam
a nossa festa
enquanto eu soco este pilão
este surdo
poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)
Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
- e espreitam.
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
João Cabral de Melo Neto: Serventia das ideias fixas
Quando aquele que os sofre
Trabalha com palavras,
são úteis o relógio, a bala e,
mais, a faca.
Os homens que em geral lidam
nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:
umas que se asfixiam
por debaixo do pó,
outras despercebidas
em meio a grandes nós;
palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal
Pois somente essa faca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário
e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente
o que em todas as facas
é a melhor qualidade:
a agudeza feroz,
certa eletricidade,
mais a violência limpa
que elas têm, tão exatas,
o gosto do deserto,
o estilo das facas
terça-feira, 5 de julho de 2016
Luigi Pirandello
Felizes as marionetes’, suspirei, ‘sobre cujas cabeças de
madeira o falso céu se conserva sem buracos! Nenhuma perplexidade angustiosa,
nem prudência, nem empecilho, nem sombra, nem piedade: nada! Podem atuar
bravamente e vivenciar com gosto sua comédia, e amar, e ter consideração e
respeito por si mesmas sem nunca sofrer de vertigens ou tonturas, pois para
seus tamanhos e atitudes aquele céu é um teto sob medida”. (O Falecido Mattia
Pascal)
O aspecto trágico da vida está justamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo necessário. E é essa escolha que organiza a nossa harmonia individual, o sentimento de nosso equilíbrio moral. É ela que constitui a tragédia e que faz com que os meus dramas não sejam simples farsas. Eles apresentam um lei de sacrifício: o sacrifício da multidão de vidas que poderíamos viver e que, no entanto, não vivemos.
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