terça-feira, 28 de abril de 2015

COMUMENTE É ASSIM


Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar. Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica
pelo sistema Muller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha.


segunda-feira, 27 de abril de 2015

Sobre um Poema


Um poema cresce inseguramente 
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Sintonia para pressa e presságio


Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Literatura: uma folha em branco.

A literatura, que tanto nos encanta com suas páginas preenchidas por letras, é, antes de tudo, uma folha em branco. Os rabiscos traçados, em 180 laudas, parecem-nos poucos para uma leitura de domingo. Conquanto, o exercício da escrita se dá pelo cultivo do deserto como um pomar à avessas - emprestando, à estrofe "Cabraliana", uma interpretação própria. Acaso não fora o escultor quem nos dissera que a escultura está no objeto primitivo, e que lhe cumpre somente retirá-la do seu cerne?

Gabriel García Márquez, e tantos outros, já falaram da angústia frente à folha esbranquiçada. É, contudo, no vazio que a literatura vivifica-se. É no pomar às avessas que, mesmo latente os frutos, entrevê-se maravilhosas maçãs a espera de mãos prontas para colhê-las da fonte.

Então, nada mais destila;
evapora; onde foi maçã
resta uma fome;

Onde foi palavra
(potros ou touros contidos)
resta a severa forma do vazio.

Cultivar, pois, o deserto como um pomar às avessas é prenunciar - e aguardar - a frutificação do estéril. Restará uma fome; sim, uma boca vazia. Para saciá-la, eis que uma maçã. O sumiço da palavra. O surgimento do vazio. Então, do nada, a palavra; o retorno de letras que se aglutinam. A criação advinda do vazio - que agora preenche o papel de conjecturas e de dores próprias e improváveis.


Breno S. Amorim

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mais náufragos que navegantes


Oh! Águas abissais!
Que exílio refugia-se em tuas profundezas?
Abrigai, por acaso, os ermos navegantes ou os náufragos da rotina?
Vós desvelareis algum dia  vosso latíbulo?
Porque, agora, para além-mar, desejos inconfessos seguem à deriva,
Afugentando do caís os exploradores de mistérios
Que seguiram para o infinito onde rumam teus afluxos.

Adão Lima de Souza
Do Livro A Vela na Demasia de Vento

A poesia


Estranha arte, a poesia!
Desenho do indizível
Numa combinação fonética!
Arquitetura onírica,
Perfeita, patética
De um mundo só e intraduzível
Senão pela palavra tempo.

Adão Lima de Souza

Do Livro A Vela na Demasia de Vento

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

NIETZSCHE: Fábula sobre verdade e mentira.

Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da "história universal": mas também foi somente um minuto.

Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lastimável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza.

Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta, que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele.

Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela flutua pelo ar com esse pathos e sente em si o centro voante deste mundo. Não há nada tão desprezível e mesquinho na natureza que, com um pequeno sopro daquela força do conhecimento, não transbordasse logo como um odre; e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo telescopicamente em mira sobre seu agir e pensar.